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Marco Bellocchio explora em ‘Portobello’ o caso judicial que destruiu a carreira de um ícone da televisão italiana

Aos 86 anos, Marco Bellocchio mantém uma vitalidade criativa que desafia o tempo. A sua mais recente obra, a série ‘Portobello’, apresentada no Festival de Veneza em setembro de 2025 e agora disponível no HBO Max, representa não apenas um regresso à narrativa televisiva, mas uma profunda imersão num dos casos mais emblemáticos da justiça italiana dos anos 1980. Bellocchio rejeita a dicotomia entre cinema e televisão, afirmando que a diferença reside essencialmente na duração: ‘O meu olhar não se altera entre fazer algo para a TV ou para o cinema’. Contudo, reconhece que o formato televisivo, ao reduzir o ritmo, permite uma relação mais eficiente e sintética com os personagens, enquanto no cinema prioriza um escopo mais amplo.

‘Portobello’ revisita o escândalo que levou à prisão de Enzo Tortora, um apresentador de televisão cuja popularidade rivalizava com a de Silvio Santos em Itália. Tortora era conhecido pelo seu programa de variedades, onde um papagaio real servia de interlocutor, muito antes da criação de figuras como Louro José no Brasil. O programa, que chegou a ter 28 milhões de espectadores, misturava entretenimento popular com denúncias sociais, criando um fenómeno único na televisão italiana.

A trama judicial que destruiu a carreira de Tortora começou quando Giovanni Pandico, um presidiário dissidente da Camorra diagnosticado com esquizofrenia e mitomania, o acusou de envolvimento com o tráfico de cocaína. Segundo Bellocchio, Pandico nutria um ódio pessoal por Tortora, exacerbado por uma cena em que o apresentador satirizava o sotaque napolitano. Este ressentimento transformou-se numa ‘delusão’, levando Pandico a acreditar que Tortora podia ouvi-lo através da televisão.

As acusações de Pandico desencadearam uma reação em cadeia: outros criminosos, inspirados pelo exemplo, inventaram testemunhos falsos, enquanto elementos do sistema judicial viram na detenção de Tortora uma oportunidade para demonstrar que até as figuras poderosas podiam ser responsabilizadas. Bellocchio argumenta que a tragédia de Tortora transcende a insanidade de Pandico e o oportunismo dos acusadores, reflectindo também um preconceito da elite intelectual contra o sucesso de um ‘burguês considerado presunçoso’ que alcançou popularidade massiva.

A série reproduz com precisão a atmosfera da Itália dos anos 1980, incluindo recriações detalhadas do programa ‘Portobello’. Bellocchio mantém a sua habitual fluidez narrativa, intercalada com momentos oníricos, como um delírio de Tortora na prisão com figuras que parecem saídas de um filme de Fellini, ou uma cena em que o papagaio foge para uma igreja – um evento que, segundo o realizador, ocorreu realmente e simboliza a busca de Tortora por significado além do misticismo.

‘Portobello’ confirma que Bellocchio continua a filmar com a mestria de obras como ‘O Traidor’ (2019), usando o caso Tortora para explorar temas universais de injustiça, preconceito social e os perigos de um sistema judicial influenciado pela histeria mediática.

Fonte: Folha de S.Paulo

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