As ações da Novo Nordisk, a farmacêutica dinamarquesa detentora dos medicamentos Ozempic e Wegovy, registaram uma queda acentuada de 16,48% na Bolsa de Copenhaga esta segunda-feira, 23 de setembro. Esta descida abrupta ocorreu após a divulgação dos resultados do ensaio clínico do CagriSema, o mais recente medicamento para perda de peso desenvolvido pela empresa, que não conseguiu igualar a eficácia da tirzepatida, o princípio ativo dos tratamentos da rival norte-americana Eli Lilly.
O ensaio clínico de 84 semanas revelou que o CagriSema proporcionou uma perda de peso média de 23%, um valor inferior aos 25,5% alcançados pela tirzepatida. Esta diferença, embora aparentemente pequena, foi suficiente para desencadear uma reação negativa significativa nos mercados financeiros, levando os investidores a venderem massivamente as ações da Novo Nordisk. Em contraste, as ações da Eli Lilly subiram 3% no início do pregão em Wall Street, refletindo a perceção de que a empresa norte-americana mantém uma vantagem competitiva no mercado de medicamentos para obesidade.
A importância da Novo Nordisk para a economia dinamarquesa ficou evidente com a queda de 6,69% do índice OMX da Bolsa de Copenhaga, um movimento que sublinha o peso da farmacêutica no mercado accionista local. O CagriSema, que combina a nova molécula cagrilintida com a semaglutida (o princípio ativo do Ozempic e Wegovy), era visto como uma aposta estratégica para consolidar a liderança da empresa no sector. No entanto, os resultados dececionantes do ensaio clínico vieram agravar uma série de desafios que a Novo Nordisk tem enfrentado nos últimos meses.
A empresa, que brevemente se tornou a maior da Europa em valor de mercado em 2024, tem vindo a perder terreno para a Eli Lilly, enfrentando uma concorrência crescente nos Estados Unidos. Além disso, a demissão do antigo CEO Lars Fruergaard Jorgensen e a previsão de que as vendas líquidas e os lucros de 2026 poderão cair até 13% contribuíram para um clima de incerteza. A farmacêutica atribui esta queda esperada a uma redução nos preços nos EUA, resultante de um acordo com o governo Trump para baixar os custos dos medicamentos para os consumidores.
Outro factor preocupante é o término das patentes do Wegovy e do Ozempic em mercados como o Canadá, Brasil, Índia e China, o que poderá abrir caminho para a entrada de versões genéricas mais baratas. Nos EUA, a empresa já enfrenta uma forte concorrência de genéricos, pressionando ainda mais os seus resultados financeiros. O novo presidente-executivo, Mike Doustdar, que assumiu o cargo em agosto, descreveu os cortes de preços nos EUA como “dolorosos”, reconhecendo os desafios que a empresa tem pela frente.
Nos últimos 12 meses, as ações da Novo Nordisk caíram quase para metade e são negociadas dois terços abaixo do pico alcançado em junho de 2024. A empresa submeteu o CagriSema à FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) para aprovação em dezembro, com base em resultados de ensaios anteriores, e uma decisão é esperada ainda este ano. No entanto, os recentes desenvolvimentos sugerem que a farmacêutica terá de repensar a sua estratégia para recuperar a confiança dos investidores e manter a sua relevância num mercado cada vez mais competitivo.
Fonte: Folha de S.Paulo



