Num contexto marcado pela necessidade de fortalecimento da identidade nacional e da memória coletiva, o ministro da Cultura de Angola, Filipe Zau, reafirmou este sábado, em Luanda, o compromisso inequívoco do Executivo angolano com a promoção da coesão social e a valorização do património cultural. Esta declaração, proferida durante um culto ecuménico que antecipou o 49.º aniversário do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), a assinalar-se a 24 de Fevereiro, vai além do mero discurso político, revelando uma estratégia governamental que integra dimensões culturais, espirituais e sociais.
A intervenção do governante destacou o engajamento das autoridades na valorização do património espiritual das comunidades, reconhecendo explicitamente o papel fundamental das confissões religiosas como parceiras na promoção da paz social, reconciliação, solidariedade e educação para valores sociais. Esta abordagem sugere uma compreensão sofisticada por parte do Executivo de que a estabilidade comunitária e o cuidado ao próximo não são apenas questões seculares, mas encontram raízes profundas nas tradições espirituais angolanas.
Analiticamente, é significativo notar como Zau elogiou a expansão territorial do CICA, presente nas 21 províncias do país, e a existência de centros ecuménicos com vocação formativa, cultural e de desenvolvimento em Luanda, Benguela e Huambo. Estas estruturas, com visão de serviço comunitário e construção de capacidades, representam não apenas infraestruturas físicas, mas nodos críticos na rede de coesão social que o governo pretende fortalecer.
O ministro encorajou ainda o CICA a continuar a fortalecer a cultura do diálogo ecuménico e interinstitucional como instrumento de prevenção de conflitos e promoção da paz, particularmente junto das famílias, jovens e grupos vulneráveis. Esta orientação revela uma perceção estratégica de que o diálogo religioso pode funcionar como mecanismo de resiliência social em contextos de potencial tensão.
A dimensão histórica do evento ganha relevância analítica quando consideramos que o CICA, fundado a 24 de Fevereiro de 1977 (inicialmente como Conselho Angolano de Igrejas Evangélicas), surge num período pós-colonial crítico para a construção da nação angolana. Ao longo de quase cinco décadas, a organização tem desempenhado um papel relevante na promoção da cooperação interdenominacional, justiça, paz e reconciliação, conforme sublinhou o secretário-geral Vladimir Agostinho.
A intervenção da bispa da igreja Anglicana de Moçambique e Angola, Filomena Teta, acrescentou uma camada teológica à discussão, ao enfatizar que a unidade entre igrejas e o fortalecimento da fraternidade cristã são pilares para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e pacífica. A sua advertência de que “a divisão enfraquece o testemunho do evangelho” enquanto “a unidade fortalece a missão da igreja” reflete preocupações contemporâneas num contexto marcado por desafios sociais e espirituais complexos.
O evento, realizado sob o lema “Unidos na diversidade, vivamos a fraternidade bíblica”, contou com a presença de líderes religiosos e membros do Governo, culminando com homenagens aos pioneiros do CICA. Esta convergência entre autoridades políticas e religiosas simboliza uma abordagem integrada à governação que reconhece a multidimensionalidade do desenvolvimento social.
Em perspectiva mais ampla, as declarações do ministro Zau podem ser interpretadas como parte de uma estratégia nacional mais abrangente que busca articular património cultural, espiritualidade e coesão social como elementos interdependentes na construção da identidade angolana pós-conflito. O facto de o CICA desenvolver ações sociais nas áreas de saúde comunitária, educação teológica e assistência às populações vulneráveis demonstra como as instituições religiosas funcionam como extensões não-estatais das políticas sociais governamentais.
Este encontro, portanto, transcende a mera celebração aniversária, representando um momento significativo na contínua negociação entre Estado e sociedade religiosa em Angola, com implicações para a forma como o país conceptualiza e implementa políticas de coesão social num contexto de diversidade cultural e religiosa.
Fonte: Angola Press