O mercado de criptomoedas enfrenta mais uma fase de volatilidade acentuada, com o bitcoin a registar uma queda significativa abaixo da barreira psicológica dos 65 mil dólares nesta segunda-feira, 23 de setembro. Esta descida, que chegou aos 4,8%, colocou o preço do ativo digital nos 64,3 mil dólares, o valor mais baixo desde fevereiro, num movimento que reflete a crescente incerteza macroeconómica e as repercussões das políticas comerciais dos Estados Unidos.
A turbulência foi desencadeada pelas declarações do presidente Donald Trump sobre o aumento das tarifas globais para 15%, anunciado no sábado, que se seguiu a uma decisão da Suprema Corte americana que anulou o uso de poderes de emergência para impor tarifas. Este contexto político-económico criou um ambiente de instabilidade que se propagou rapidamente para os mercados financeiros, incluindo o das criptomoedas, onde o ether também recuou até 5,2%.
Analistas de mercado destacam que o nível de suporte dos 65 mil dólares tem sido crucial para os compradores de bitcoin, com Chris Beauchamp, analista-chefe da IG, a referir que “uma queda abaixo desse nível durante a madrugada ocorreu em baixa liquidez e, por enquanto, foi comprada”. No entanto, a recuperação parcial para acima dos 66,3 mil dólares não deve ser interpretada como um sinal de estabilidade, mas sim como uma tentativa de contenção num mercado frágil.
O panorama atual é agravado pelo facto de o bitcoin ter eliminado todos os ganhos remanescentes desde a reeleição de Trump em novembro de 2024, um período marcado por expectativas de um segundo mandato mais favorável às criptomoedas. Essas expectativas levaram o bitcoin a um pico histórico acima dos 126 mil dólares em outubro passado, seguido por uma onda de vendas massiva que resultou na perda de mais de 2 biliões de dólares em valor no mercado cripto, com os tokens menores a serem particularmente afetados.
Caroline Mauron, cofundadora da Orbit Markets, sublinha que “o mercado de criptomoedas continua frágil, com os participantes do mercado a contar com suporte nos 60 mil dólares”, acrescentando que a incerteza macroeconómica, desde tensões geopolíticas com o Irão até às flutuações das tarifas dos EUA, pode levar a outro teste desse nível. Esta perspetiva é reforçada pelos dados que mostram que os doze fundos de bitcoin à vista listados nos EUA registaram a quinta semana consecutiva de saídas líquidas, a sequência mais longa desde fevereiro do ano passado, com investidores a retirarem 3,8 mil milhões de dólares.
Nas últimas 24 horas, o mercado perdeu mais 100 mil milhões de dólares em valor, segundo a CoinGecko, enquanto dados da Deribit indicam que a proteção contra quedas está concentrada em torno dos 60 mil dólares. Robin Singh, CEO da Koinly, aponta que o pessimismo contínuo evidencia como o bitcoin está “a clamar por uma nova narrativa neste momento”, referindo que o otimismo em torno da Lei de Clareza dos EUA não moveu significativamente os preços, sugerindo a necessidade de novos catalisadores.
Rachael Lucas, analista da BTC Markets, afirma que os 65 mil dólares permanecem como um nível de suporte fundamental, alertando que “uma queda abaixo disso coloca os 60 mil dólares em jogo”. Para uma mudança de narrativa, os otimistas precisariam de retomar os 70 mil dólares, um cenário que parece distante face à atual conjuntura. Em suma, a volatilidade do bitcoin reflete não apenas as incertezas políticas imediatas, mas também a procura por uma direção clara num mercado ainda em maturação.
Fonte: Folha de S.Paulo
