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Idosos Portugueses Adotam Inteligência Artificial para Criar Identidades Digitais Rejuvenescidas

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Idosos Portugueses Adotam Inteligência Artificial para Criar Identidades Digitais Rejuvenescidas

Num fenómeno que ilustra a crescente digitalização da terceira idade, idosos portugueses estão a utilizar ferramentas de inteligência artificial (IA) para gerar imagens rejuvenescidas de si próprios, transformando-as em figurinhas digitais partilhadas através de aplicações como o WhatsApp e redes sociais como o TikTok. Este comportamento, que ultrapassa o uso meramente instrumental da tecnologia, revela uma complexa interação entre identidade, envelhecimento e inovação tecnológica.

A aposentada Ana Tesser, 75 anos, exemplifica esta tendência ao criar cenas digitais onde monta a cavalo, pilota helicópteros e até abraça o seu ídolo Roberto Carlos – tudo através de imagens geradas por IA. O processo, aprendido com a irmã mais nova de 65 anos, tornou-se uma atividade social que partilha com amigas, questionando com humor: “Viu que lindas as minhas pernas?” numa referência às suas representações digitais idealizadas.

Segundo Jeane Silva, psicóloga especializada em gerontologia, observa-se uma transição significativa: dos filtros de beleza convencionais para uma autêntica “troca de corpos” digital, onde mulheres de 70-80 anos adquirem aparência de 20 anos nas redes sociais. Esta prática levanta questões profundas sobre a relação dos idosos com a sua imagem corporal e o envelhecimento numa sociedade cada vez mais visual e digital.

A especialista alerta para a falta de instrução sobre estas ferramentas, particularmente preocupante quando a IA é utilizada como substituto terapêutico por idosos que vivem sozinhos. Contudo, reconhece que a tecnologia também oferece potenciais benefícios, desde a promoção da inclusão social até ao aumento da autonomia através de assistentes virtuais para gestão financeira ou cuidados de saúde.

Kamila Rios, professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, desenvolveu um curso de IA para idosos que aborda os riscos associados: desde a proteção de dados pessoais até questões jurídicas como uso indevido de imagem e disseminação de notícias falsas. A investigadora sublinha que muitos utilizadores nem sequer têm consciência de que estão a utilizar IA, um dado crucial quando se analisam estatísticas sobre hábitos digitais.

Os números da TIC Domicílios 2025 revelam que apenas 6% dos internautas brasileiros com 60+ declararam utilizar IA, mas este valor é provavelmente subestimado devido à falta de reconhecimento da tecnologia. Entre os que não utilizam, destacam-se barreiras como falta de habilidade (72%), preocupações com segurança (68%) e desconhecimento da existência destas ferramentas (66%).

Kamila Rios prevê que a adoção aumentará à medida que as interfaces se simplificarem e os chatbots se tornarem mais “humanizados” através de avatares, tornando as terapias com IA mais atraentes para este grupo etário. No entanto, adverte: “É um momento em que as pessoas podem estar mais vulneráveis, com medo do envelhecimento, da morte. A IA pode ‘enganar’ os medos temporariamente, mas não resolve questões existenciais profundas.”

Este fenómeno representa mais do que uma mera curiosidade tecnológica – simboliza uma renegociação da identidade na terceira idade, onde as fronteiras entre realidade física e representação digital se desvanecem, criando novos desafios éticos, psicológicos e sociais que exigem reflexão aprofundada e regulamentação adequada.

Fonte: Folha de S.Paulo

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