O Irão está a concentrar a sua estratégia dissuasora contra os Estados Unidos no Estreito de Ormuz, um dos principais gargalos marítimos globais, perante o maior deslocamento de forças norte-americanas para o Médio Oriente desde a Guerra do Iraque em 2003.
O estreito, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, tem apenas 40 quilómetros de largura na zona mais próxima entre o Irão e a Península Arábica. O país mantém pelo menos 16 instalações militares na sua margem e nas ilhas que controla na região, sendo Qeshm a principal.
Com a pressão militar norte-americana para que o Irão abandone o seu programa nuclear, Teerão tem destacado a capacidade de causar perturbações nesta rota marítima, por onde transita 20% da produção mundial de petróleo e gás, incluindo 90% das exportações da Arábia Saudita.
Esta semana, o Irão realizou exercícios militares que incluíram disparos de mísseis a partir de 131 lanchas rápidas e o início de manobras conjuntas com navios russos, que deverão integrar também embarcações chinesas nos próximos dias. A operação Cinturão de Segurança Marítima-2026 tem como base Bandar Abbas, quartel-general da Guarda Revolucionária no estreito.
Durante os exercícios, foi evidenciado o papel da corveta furtiva Shahid Suleimani, nomeada em homenagem ao antigo comandante Qassim Suleimani, morto num ataque com drones no Iraque em 2020.
Contudo, o encerramento do Estreito de Ormuz afectaria também o próprio Irão, que exporta mais de 80% do seu petróleo para a China através do terminal na ilha de Kargh, no Golfo Pérsico, necessitando de passar pelo mesmo estreito.
As defesas aéreas iranianas demonstraram vulnerabilidades no ano passado, quando Israel realizou operações aéreas com pouca oposição. O contingente militar iraniano, com 610 mil homens incluindo 190 mil da Guarda Revolucionária, teria utilidade limitada num conflito que não envolva invasão terrestre.
O arsenal de mísseis balísticos do Irão, estimado em 2.000 unidades antes do conflito de junho, mostrou eficácia limitada, com 90% dos 600 projécteis lançados a serem interceptados durante operações anteriores.
As instalações norte-americanas no Médio Oriente, que incluem oito bases principais entre quase 20 pontos de presença, receberam protecção adicional com baterias antiaéreas de alta e média altitude.
O Irão possui uma quantidade significativa de mísseis antinavio posicionados na região de Ormuz. A combinação destes com ataques de drones Shahed-136 poderia representar uma ameaça às embarcações norte-americanas, embora os sistemas de defesa dos porta-aviões apresentem protecção múltipla.
Os Houthis do Iémen, aliados do Irão, tentaram ataques semelhantes no Mar Vermelho durante 2024 e 2025 sem sucesso, apesar dos custos elevados em mísseis antiaéreos para as forças norte-americanas.
A rede regional de aliados do Irão tem sofrido enfraquecimento, embora os Houthis mantenham capacidade operacional relativamente intacta.
Fonte: Folha de S.Paulo
