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Uruguai: O Líder Inesperado da Revolução Elétrica na América Latina

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Uruguai: O Líder Inesperado da Revolução Elétrica na América Latina

Enquanto muitos países latino-americanos ainda debatem a transição energética, o Uruguai emergiu como um caso paradigmático de sucesso na adoção de veículos elétricos. Com 5.382 unidades por milhão de habitantes em dezembro de 2024, segundo dados da Organização de Energia da América Latina e do Caribe (Olacde), o país não apenas lidera o continente em penetração per capita, como demonstra um crescimento exponencial que desafia as expectativas regionais.

A análise dos números revela uma transformação estrutural: em 2025, um em cada cinco veículos zero quilómetro vendidos no Uruguai era elétrico, representando um aumento de 147% face ao ano anterior. Este desempenho permitiu ao país ultrapassar a Costa Rica no ranking latino-americano de participação de veículos elétricos no mercado automóvel, elaborado pelo Observatório da Mobilidade Zero Emissão (Zemo). Enquanto a média continental se situava nos 6% (excluindo países sem dados disponíveis), o Uruguai atingiu os 20% – patamar comparável ao europeu.

O fenómeno uruguaio torna-se ainda mais significativo quando contextualizado: com apenas 3,5 milhões de habitantes, o país registou cerca de 14,4 mil veículos elétricos novos em 2025. Em contraste, o Brasil – com sua frota de 237,2 mil unidades elétricas em dezembro de 2024 – apresenta uma penetração per capita significativamente inferior, apesar do crescimento de 46% no mesmo período.

A explicação para esta liderança regional reside numa conjugação estratégica de fatores. Em primeiro lugar, a transição energética iniciada em 2010, sustentada por um acordo multipartidário que sobreviveu a mudanças governamentais, permitiu que 99% da matriz elétrica do país fosse composta por fontes renováveis (hídricas, eólicas, solares e biomassa). Esta independência energética reduziu drasticamente a dependência de combustíveis fósseis importados, criando um ecossistema favorável à eletrificação do transporte.

Paralelamente, o Uruguai implementou políticas fiscais agressivas: eliminou ou reduziu significativamente impostos para veículos elétricos, contrastando com a elevada carga tributária sobre veículos de combustão. Esta “diferença no bolso” é amplificada pelo preço da gasolina – o mais alto da América Latina – tornando a opção elétrica economicamente atrativa.

O simbolismo político reforça esta transformação: o presidente Yamandú Orsi chegou à cerimónia de posse em março de 2025 num veículo elétrico, sinalizando o compromisso nacional com esta transição. Como observa Juan Diego Celemin, especialista regional da Zemo, “O Uruguai teve taxas de crescimento claramente explosivas em 2025 e transformou-se nessa estrela ascendente que começa a dominar a região”.

As projeções indicam continuidade nesta trajetória: em janeiro de 2026, os veículos elétricos já representavam 30% das vendas de carros novos, segundo a Associação do Comércio Automotor do Uruguai (Acau). Este caso demonstra como políticas energéticas consistentes, incentivos fiscais estratégicos e consenso político podem acelerar transições tecnológicas mesmo em economias de média dimensão, oferecendo lições valiosas para outros países em desenvolvimento.

Fonte: Folha de S.Paulo

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