Então, imagina isto: o Donald Trump reuniu-se esta quinta-feira com 20 líderes mundiais para a primeira reunião do seu Conselho da Paz, que ele próprio criou. E logo no discurso de abertura, já foi direto ao assunto do Irão, com aquela linguagem típica dele: “O Irão tem de fazer um acordo ou coisas más vão acontecer”. E ainda acrescentou: “Talvez tenhamos de dar um passo em frente ou não. Vamos descobrir nos próximos dez dias”. Isto tudo enquanto anunciava o envio de 7 mil milhões de dólares (cerca de 37 mil milhões de reais) para a reconstrução de Gaza.
Esta declaração surge numa altura em que as tensões entre os EUA e o Irão estão a aumentar, especialmente depois das negociações sobre o programa nuclear iraniano em Genebra. O Irão disse que a reunião de três horas foi produtiva e que há mais encontros marcados, mas os EUA parecem menos satisfeitos. E há rumores de que os americanos estão a preparar-se para um possível ataque ao Irão, apesar de estarem a tentar a via diplomática.
O evento em si foi no Donald Trump Institute of Peace (sim, ele rebatizou o local em sua própria homenagem), e Trump chegou acompanhado pelo vice-presidente JD Vance, pelo secretário de Estado Marco Rubio e pela chefe do gabinete da Casa Branca, Susie Wiles. Também estavam lá Steve Witkoff, o enviado especial para o Médio Oriente, e Jared Kushner, o genro de Trump, que ajudou a negociar o cessar-fogo em outubro.
Trump não perdeu tempo a elogiar os presentes, dizendo que estava diante dos melhores líderes mundiais e que a maioria já aceitou o convite para o conselho. Aos que ainda não responderam, avisou: “Quem ainda não aceitou, vai. Há alguns que estão a fazer charme. Isso não funciona comigo”. O Brasil, por exemplo, foi convidado mas ainda não confirmou a participação. Entre os que estavam lá, estava o presidente da Argentina, Javier Milei, que Trump disse ter apoiado na campanha eleitoral, alegando que isso foi decisivo para a vitória dele.
E não ficou por aí: Trump também mencionou o apoio ao ultradireitista Viktor Orbán, da Hungria, e elogiou o presidente do Paraguai, Santiago Peña, dizendo que está a fazer um ótimo trabalho e comentando a sua aparência: “Jovem e bonito. Não gosto de homens jovens e bonitos, mulheres sim”.
Agora, os detalhes do conselho: segundo a Casa Branca, Trump terá poder de veto e poderá continuar a liderar mesmo depois de deixar o cargo. Para ser membro permanente, os países têm de desembolsar 1 milhão de dólares (cerca de 5,2 mil milhões de reais). Mas apesar de o objetivo anunciado ser a reconstrução de Gaza, há quem tema que Trump tenha interesses mais amplos e que isto seja uma forma de enfraquecer a ONU, que ele critica frequentemente.
Falando em Gaza, o valor anunciado de 7 mil milhões de dólares pode não ser suficiente – a ONU estima que a reconstrução da região, devastada após dois anos de conflito com Israel, custe 70 mil milhões de dólares. E a reunião desta quinta-feira não contou com a presença de líderes de países europeus como o Reino Unido, França e Alemanha, embora a Comissão Europeia tenha enviado um representante. A França criticou essa participação, dizendo que ficou surpresa e que a Comissão não tem mandato para representar os Estados-membros.
Para piorar, uma análise do Instituto V-Dem, que monitora a qualidade democrática, mostra que a maioria dos países que aceitaram participar no conselho são autocracias ou ditaduras, como a Hungria, o Qatar e a Arábia Saudita. E nos últimos dias, o Vaticano também anunciou que não vai participar, com o cardeal Pietro Parolin a confirmar que a Santa Sé “não participará do Conselho da Paz devido à sua natureza”.
Resumindo, foi um evento cheio de polémica, com ameaças ao Irão, elogios a líderes controversos e muitas questões sobre os verdadeiros objetivos do conselho. Fica a ver como é que isto se vai desenrolar nos próximos dias!
Fonte: Folha de S.Paulo
