Os dados oficiais mais recentes sobre padrões de consumo de substâncias em Portugal revelam um cenário complexo e paradoxal: enquanto o consumo global de drogas apresenta uma tendência decrescente entre os jovens, os padrões de consumo intensivo de canábis mantêm-se preocupantes, particularmente na faixa etária dos 13 aos 18 anos.
Segundo o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), 10% dos jovens consumidores de canábis entre os 13 e os 18 anos mantêm um padrão de consumo diário ou quase diário. Este dado assume especial relevância quando contextualizado com a descida acentuada nos consumos de qualquer droga nesta faixa etária entre 2019 e 2024, onde a experimentação passou de 15% para 8% e o consumo recente de 13% para 6%.
A análise dos relatórios do ICAD sugere uma evolução preocupante: apesar da diminuição geral no consumo de canábis, a prevalência de consumos abusivos não só não diminuiu como se agravou entre os jovens, especialmente nos 15-24 anos. Os números mostram um aumento progressivo de 0,2% em 2012, para 0,7% em 2017, e 1,3% em 2022, indicando uma tendência de intensificação dos padrões de consumo entre os utilizadores jovens.
Um inquérito realizado em 2024 no Dia da Defesa Nacional junto de jovens de 18 anos revelou dados ainda mais específicos: 2% dos inquiridos (equivalente a 23% dos consumidores) reportaram consumo diário de canábis. Este estudo também identificou a prática comum de consumo simultâneo de várias substâncias psicoativas, particularmente canábis com álcool (6% dos inquiridos, 32% dos consumidores).
Os impactos destes padrões de consumo já são visíveis: estudantes reportam problemas relacionados com rendimento escolar, dificuldades profissionais, conflitos familiares e comportamentos sexuais de risco. Estes dados sugerem que, embora menos jovens estejam a experimentar drogas, aqueles que consomem estão a fazê-lo de forma mais intensiva e com consequências mais graves.
Paralelamente, observa-se um esbatimento das diferenças de género nos consumos, embora a prevalência se mantenha superior nos rapazes. Esta evolução sociológica merece atenção particular, pois indica mudanças nos padrões culturais de consumo entre os jovens portugueses.
Curiosamente, os portugueses destacam-se numa perspetiva europeia: num Eurobarómetro de 2024, 68% dos portugueses consideram o consumo de drogas um problema muito grave ou grave, contrastando com a média europeia de 39%. No entanto, esta perceção de gravidade coexiste com uma avaliação relativamente positiva sobre a evolução dos problemas relacionados com drogas nas suas comunidades.
Esta dualidade entre a perceção pública e os dados concretos sobre padrões de consumo intensivo entre jovens sugere a necessidade de políticas de prevenção mais direcionadas e específicas, que vão além das abordagens gerais de redução de consumo e se foquem nos padrões de risco emergentes.
Fonte: Sicnoticias Pt



