24 C
Lourenço Marques
Sábado, 18 Abril 2026
No menu items!
- Publicidade -spot_img
InícioInternacionalO Último Bolsonarista: Uma Análise do Fenómeno Neofascista na Sociedade Brasileira Contemporânea

O Último Bolsonarista: Uma Análise do Fenómeno Neofascista na Sociedade Brasileira Contemporânea

Num condomínio da região serrana do Rio de Janeiro, reside aquilo que alguns apelidam de “o último bolsonarista”. Esta designação, embora hiperbólica face às sondagens eleitorais, simboliza um fenómeno mais profundo: um conjunto de indivíduos que, publicamente, já não assumem ligação a Jair Bolsonaro, mas mantêm viva uma espécie de fetiche pelo seu nome, como um palavrão silencioso. O termo “último” funciona aqui como metáfora do inglês “ultimate”, denotando uma atitude extrema, levada até ao limite.

O caso em análise emergiu de uma violação do tabu condominial: o filho de seis anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Um morador exige agora uma proibição formal, criando constrangimento na maioria, uma vez que o acesso é permitido pela convenção do condomínio. Mantidas as devidas proporções, este episódio é análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, que se sentiu ultrajado pela viagem de uma empregada doméstica à Disney. Hoje, esse ex-ministro atua como guru do filho de Bolsonaro, viajando com tanta frequência que parece fazer campanha nos Estados Unidos pela presidência do Brasil.

O nome Bolsonaro transformou-se numa grife no mercado partidário, funcionando como lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos seus adeptos. Esta “máquina” não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Avança através de fenómenos de atração e repulsa social, onde os tópicos de insatisfação incidem sobre mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.

Uma incongruência na atitude deste “último bolsonarista” reside no facto de a família visada ter pele clara, escolaridade superior e um trato refinado. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no seu íntimo, como uma igualdade de estirpe que, por uma hierarquia secreta, o impediria de reconhecer um zelador como socius. É aquilo que, em Shakespeare, se poderia chamar de “destilação leprosa”, que, no contexto brasileiro, conduz à rejeição antipetista. Este fenómeno não está relacionado com a realidade económica (como desemprego baixo ou inflação controlada) nem política (como a estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.

O “último bolsonarista” não é uma ficção e serve como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas um tempo de espera por carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Entretanto, nas sondagens eleitorais, contam-se 32% de eleitores independentes, os chamados “pêndulos”, sobre os quais pouco se sabe quanto ao seu potencial de autonomia face à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto destes “últimos”, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira uma aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.

Fonte: Folha de S.Paulo

ARTIGOS RELACIONADOS

Deixe um comentário

- Publicidade -spot_img

Nos Últimos 7 Dias

Comentários Recentes