A morte de Nemesio ‘El Mencho’ Oseguera, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), num confronto com forças militares mexicanas, precipitou uma das mais graves crises de segurança dos últimos anos no país. O incidente, ocorrido no domingo em Tapalpa, estado de Jalisco, não só eliminou um dos narcotraficantes mais procurados do mundo — com uma recompensa de 15 milhões de dólares oferecida pelos Estados Unidos — como desencadeou uma onda de violência coordenada que se estendeu por pelo menos 20 estados mexicanos.
A resposta imediata do governo mexicano foi a mobilização de 10 mil soldados, incluindo um reforço de 2.500 efetivos para Jalisco, um dos estados-sede da próxima Copa do Mundo da FIFA. Esta medida reflecte a magnitude da ameaça: membros do CJNG bloquearam estradas, incendiaram veículos e estabelecimentos comerciais, e promoveram uma fuga em massa numa prisão de Jalisco, onde pelo menos 23 detidos escaparam após um ataque com intenso tiroteio. O balanço oficial aponta para 27 mortos entre as forças de segurança, 46 supostos criminosos e um civil, números que sublinham o carácter letal dos confrontos.
Analiticamente, a morte de ‘El Mencho’ representa um ponto de viragem na guerra contra o narcotráfico no México. Com 59 anos, Oseguera era visto como o último dos grandes chefes do tráfico que operava segundo os moldes brutais de figuras como Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán, actualmente preso. A sua eliminação física, contudo, longe de resolver o problema, pode agravá-lo no curto prazo. Especialistas, como David Mora do Crisis Group, alertam que a ‘ausência de uma sucessão directa’ no CJNG — agravada pela condenação recente do seu filho, Rubén ‘El Menchito’, nos Estados Unidos — pode criar um vazio de poder que leve a realinhamentos violentos dentro da organização e a lutas internas pelo controlo do cartel.
O impacto social e económico da violência foi imediato e profundo. Em Guadalajara, capital de Jalisco, escolas encerraram, o transporte público foi suspenso e a maioria dos estabelecimentos comerciais permaneceu fechada, com longas filas a formar-se em frente a lojas essenciais como tortilharias. Em Aguililla, cidade natal de ‘El Mencho’ em Michoacán, moradores relataram bloqueios e colunas de fumaça negra, enquanto em Puerto Vallarta — destino turístico popular entre norte-americanos — a violência forçou o cancelamento de dezenas de voos e levou países como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos a emitirem alertas de viagem.
Testemunhos de residentes, como o aposentado Juan Soler e Maria de Jesus Gonzalez, revelam um clima de medo generalizado, com muitos a descreverem noites sem dormir e uma ansiedade persistente mesmo após a relativa acalmia. Este cenário coloca desafios urgentes ao governo mexicano, que deve agora não só conter a violência imediata, mas também gerir as consequências estratégicas da morte de ‘El Mencho’. A mobilização militar em larga escala é um sinal claro da gravidade da situação, mas especialistas questionam se será suficiente para prevenir uma fragmentação do CJNG que poderia espalhar ainda mais o caos. A curto prazo, a prioridade é restaurar a ordem pública, mas a longo prazo, o México enfrenta o dilema de como desmantelar estruturas criminosas sem criar vazios de poder que alimentem nova violência.
Fonte: Folha de S.Paulo



