A trajetória do U2 nas últimas décadas do século XX consolidou a banda irlandesa como um fenómeno único no rock global – não apenas pela dimensão comercial, mas pela capacidade de fundir música com ativismo político numa fórmula amplamente aceite. Esta posição messiânica, personificada pelo vocalista Bono e pelo seu envolvimento com figuras do poder mundial, criou expectativas que o grupo tem lutado por manter face à produção discográfica mais recente, frequentemente criticada como genérica.
O silêncio do U2 perante os acontecimentos geopolíticos marcantes dos últimos anos – desde a presidência de Donald Trump aos conflitos na Ucrânia e Gaza – gerava estranheza junto dos fãs e observadores. O EP ‘Days of Ash’, com seis faixas inéditas, surge assim como uma tentativa explícita de reafirmar o compromisso ativista da banda, mas revela-se um exercício problemático onde a mensagem política se sobrepõe à qualidade artística.
Analisando o conjunto de canções, verifica-se uma abordagem que poderíamos designar como ‘rebeldia burocrática’ – um ativismo que, apesar das boas intenções, se revela previsível e pouco eficaz musicalmente. As referências a conflitos contemporâneos (soldados ucranianos, vítimas em Gaza, opressão feminina no Sudão e Irão) surgem embaladas em arranjos musicais comportados que pouco evocam a energia roqueira que caracterizou o melhor do U2.
A faixa de abertura, ‘American Obituary’, exemplifica esta contradição. Concebida como um hino contra a era Trump, perde-se em jogos de palavras ginasianos (‘Eu amo-vos mais do que o ódio ama a guerra’) e num visual conceptual que recorre a símbolos baratos (uma pomba branca presa numa gaiola). A canção sobre o assassinato de Renée Nicole Good pela polícia de imigração poderia funcionar melhor ao vivo, mas no contexto do EP revela-se mais um cliché da cartilha de hits para grandes arenas que o próprio U2 ajudou a criar.
A exceção notável é ‘The Tears of Things’, onde a banda demonstra a sofisticação que ainda pode alcançar. Partindo da perspetiva original da estátua de David de Michelangelo – um menino extraído do mármore e confrontado com o mundo – desenvolve-se numa balada inteligente que poderia integrar qualquer dos melhores álbuns da banda sem desmerecer.
As restantes faixas confirmam as limitações do projeto. ‘Song of the Future’ e ‘One Life at a Time’ são rocks frouxos típicos da fase recente do grupo, enquanto ‘Wildpeace’ oferece uma pausa interessante com um poema de Yehuda Amichai recitado pela nigeriana Adeola. O fecho com ‘Your Eternally’, uma canção pop emocional sobre soldados ucranianos separados das famílias, conta com participações de Taras Topolia (da banda ucraniana Antytila) e Ed Sheeran, revelando claramente a intenção de alcançar audiências mainstream.
Esta inconsistência musical, unida apenas pelo fio condutor do ativismo político, sugere que ‘Days of Ash’ funciona mais como uma declaração de intenções do que como um trabalho artístico coeso. Bono já indicou que o próximo álbum do grupo, previsto para finais deste ano, será musicalmente diferente – o que reforça a perceção de que este EP serve principalmente para reativar a imagem ativista da banda após um período de relativa inércia.
Para além dos fãs mais dedicados, ‘Days of Ash’ apresenta-se mais como uma curiosidade do que como um disco arrebatador, levantando questões pertinentes sobre o equilíbrio entre mensagem política e qualidade artística no rock contemporâneo.
Fonte: Folha de S.Paulo



