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Dados Alternativos Facilitam Acesso a Crédito para Populações com Histórico de Endividamento

Edilaine Santos da Silva, de 33 anos, residente em Paraisópolis, o maior bairro favelizado de São Paulo, realiza diariamente o controlo das suas vendas de bolos. O seu objetivo é demonstrar a gestão das suas finanças para obter crédito, essencial para o desenvolvimento do seu pequeno negócio.

Paraisópolis, localizado na zona sul da capital paulista, alberga 58,2 mil habitantes, de acordo com dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022.

O conceito de score comportamental, desenvolvido inicialmente na Califórnia, Estados Unidos, surgiu da necessidade de analisar consumidores sem acesso a crédito tradicional através de métodos alternativos. Esta abordagem avalia hábitos financeiros e comportamentos pessoais dos candidatos a empréstimos.

Paula Esteves, de 44 anos, fundadora do Instituto WorkLover, defende que a avaliação de crédito não deve basear-se exclusivamente no histórico de pagamentos. A sua organização dedica-se a prevenir o encerramento de microempreendedores individuais e microempresas. Paula enfatiza a importância de separar as finanças pessoais das empresariais, considerando a mistura das duas uma das principais causas de desistência entre empreendedores.

O G10 Bank, iniciativa da ONG G10 Favelas dirigida a moradores de comunidades, implementa mecanismos para fomentar o comércio em Paraisópolis. Um dos métodos inclui a concessão de crédito com base em critérios não tradicionais. Depoimentos de figuras influentes na comunidade funcionam como validação para pedidos de empréstimo.

Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas, explica a criação de um comité de crédito organizado através do movimento ‘presidente de rua’. Líderes responsáveis por grupos de 50 famílias auxiliam na decisão de concessão de crédito. Esta avaliação considera fatores como participação comunitária, desempenho escolar dos filhos e envolvimento na comunidade, indo além das análises convencionais de serviços como o Serasa.

O programa Donas de Si, dirigido a mulheres empreendedoras de Paraisópolis e liderado por Paula Esteves, promove a utilização da aplicação ‘Separadin’ para distinguir receitas empresariais e pessoais. Tanto Paula como Gilson acreditam que os programas de score comportamental e social tendem a expandir-se, considerando o método exclusivamente financeiro insustentável.

Dados de 2024 indicam que 6,2 milhões de microempreendedores individuais encontravam-se em situação de inadimplência, representando 40% dos registos ativos no país. A principal causa é o não pagamento do Documento de Arrecadação do Simples Nacional, que inclui contribuições para o INSS, ISS e ICMS. Das 1,8 milhões de empresas notificadas pela Receita Federal no ano anterior, 1,1 milhões eram microempreendedores individuais, com uma dívida total de 26,7 mil milhões de reais.

No sector individual, o Brasil registou em abril de 2025 um número recorde de 70,3 milhões de inadimplentes, com uma dívida média de 4,7 mil reais por pessoa.

Zhongyuan Xu, investigador e professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos, afirma que os dados de fontes alternativas têm ganhado importância nos modelos de avaliação de crédito, por abrangerem um espectro mais amplo de variáveis. Xu é autor do estudo ‘Score de crédito usando dados alternativos: uma máquina de aprendizado’, publicado pela Goizueta Business School.

Especialistas defendem ainda a utilização de inteligência artificial para monitorizar alterações de hábitos financeiros, incluindo a utilização de aplicações móveis, frequência de recargas, compras online e cruzamento de informações entre vendas comerciais e deslocações registadas por sistemas de localização.

Edilaine Santos da Silva, que deixou um relacionamento abusivo para viver com os seus seis filhos, vende entre 400 e 500 reais em bolos mensalmente em Paraisópolis. Uma vez por semana, estabelece um ponto de venda na avenida Ibirapuera, onde possui uma clientela fixa.

Fonte: Folha de S.Paulo

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