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Desvalorização do dólar impulsiona retorno massivo de brasileiros ao turismo de compras no Paraguai

A desvalorização acumulada do dólar face ao real, que registra uma queda de 5,7% no ano corrente e de 9,3% nos últimos doze meses, está a catalisar um fenómeno económico e social significativo: o reaquecimento do turismo de compras de brasileiros no Paraguai. Esta tendência não se limita a um mero aumento pontual de visitantes; representa um regresso robusto a padrões pré-pandémicos, com implicações profundas para o comércio transfronteiriço, o turismo regional e os hábitos de consumo.

Os dados do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, porta de entrada estratégica para a região, são elucidativos. Em janeiro de 2026, a movimentação de passageiros atingiu 198.887, um aumento de 11,3% face a janeiro de 2025 (178.647) e um crescimento notável comparado com janeiro de 2024 (157.008). Este desempenho consolida a recuperação total do tráfego aéreo para níveis anteriores à pandemia, após um ano recorde em 2025, com mais de 2,2 milhões de passageiros. Paralelamente, a cidade de Foz do Iguaçu recebeu 5,8 milhões de turistas nos seus principais atracções em 2025, um crescimento de 48% em relação ao ano anterior, sem contabilizar o fluxo adicional direccionado para compras no Paraguai.

O epicentro deste movimento continua a ser Ciudad del Este, famosa pelos preços competitivos em produtos electrónicos, como smartphones e robôs aspiradores. Contudo, a dinâmica cambial exige uma análise cautelosa. Nas lojas paraguaias, a cotação do dólar praticada não segue as taxas comerciais ou turísticas oficiais, mas sim o câmbio paralelo, que varia entre estabelecimentos, introduzindo um elemento de volatilidade e necessidade de negociação por parte dos consumidores.

O impacto económico é tangível. Dados da fintech Nomad, que oferece cartões de débito em múltiplas moedas, revelam um crescimento de 150% no volume gasto no Paraguai nos últimos doze meses (fevereiro de 2025 a janeiro de 2026), o melhor desempenho já registado para o período. Kaká Souza, guia de compras no Paraguai da agência de turismo Loumar, confirma este optimismo, referindo uma ocupação média de 81% nos meios de hospedagem, repetindo o índice do ano anterior. A queda do dólar no final de janeiro de 2026, com oscilações entre R$ 5,50 e R$ 5,70, atraiu particularmente brasileiros das regiões próximas do Paraná e Santa Catarina, que optam por viagens de automóvel.

Além dos electrónicos, um novo segmento emergiu como destaque: os medicamentos para perda de peso, especialmente as denominadas ‘canetas emagrecedoras’. A busca por economia levou muitos brasileiros a adquirirem estes produtos em farmácias paraguaias, onde os preços podem ser inferiores a metade dos praticados no Brasil. No entanto, este aparente benefício financeiro esconde riscos significativos. A Direcção Nacional de Vigilância Sanitária (Dinavisa) do Paraguai emitiu alertas contra marcas como Synedica e TG, comercializadas irregularmente sem registo sanitário, e contra produtos à base de Retatrutida, que não possuem qualquer registo no país. No Brasil, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu especificamente produtos como T.G. 5, Lipoless, e Tirzazep Royal Pharmaceuticals, entre outros.

A legislação brasileira permite a importação de medicamentos para uso pessoal, mediante receita médica e cumprimento de requisitos, mas esta autorização não se aplica a produtos com restrições específicas, como os recentemente proibidos. Adicionalmente, o valor destas compras afecta o limite de isenção de impostos para compras internacionais, fixado em US$ 500 a cada 30 dias. Exceder este montante obriga à declaração e pagamento de impostos sobre o excedente, adicionando uma camada de complexidade fiscal a transações já arriscadas do ponto de vista sanitário.

Em síntese, a queda do dólar está a reconfigurar os padrões de consumo transfronteiriço, impulsionando um turismo de compras que beneficia economicamente a região, mas que também levanta questões críticas sobre segurança sanitária e conformidade regulatória. Este fenómeno reflecte não apenas uma resposta a flutuações cambiais, mas também uma adaptação comportamental pós-pandémica, onde a procura por poupança se intersecta com riscos emergentes em mercados não regulados.

Fonte: Valor Econômico

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