Adis Abeba – A transição de João Lourenço da presidência rotativa da União Africana (UA) para funções estratégicas permanentes revela uma continuidade de influência que ultrapassa os ciclos políticos formais. O Presidente angolano, agora designado Campeão da UA para a Paz e Reconciliação em África, mantém um protagonismo continental que se estende a múltiplas dimensões da governação africana, desde a resolução de conflitos até ao desenvolvimento económico.
A distinção como Campeão da Paz, formalizada na XVI Cimeira Extraordinária da UA em Malabo (Maio de 2022), não constitui um título meramente honorífico, mas sim um mandato operacional fundamentado no histórico diplomático de Lourenço na promoção da estabilidade regional, particularmente na Região dos Grandes Lagos. Esta designação reflecte um reconhecimento institucional do papel mediador que Angola tem desempenhado em crises complexas, como a do Leste da República Democrática do Congo (RDC), onde persistem tensões com o Ruanda. A abordagem angolana, centrada no “diálogo intercongolês” como via para a reconciliação nacional, enquadra-se no princípio de “soluções africanas para problemas africanos” que Lourenço tem sistematicamente defendido.
Paralelamente, a recente eleição para presidente em exercício do Comité de Orientação dos Chefes de Estado e de Governo da AUDA-NEPAD (Agência de Desenvolvimento da UA) consolida a sua influência na arquitectura do desenvolvimento continental. Este mandato de dois anos posiciona-o no centro das estratégias de mobilização de recursos, execução de programas prioritários e fortalecimento institucional dos Estados-membros, áreas críticas para a concretização da Agenda 2063.
Durante a presidência angolana da UA, as prioridades centraram-se nas infraestruturas e no capital humano como pilares do desenvolvimento integral, princípio operacionalizado através de iniciativas como a 3.ª Conferência sobre o Financiamento para o Desenvolvimento das Infraestruturas em África (Luanda, 2025). Estas plataformas permitiram mobilizar investimentos para sectores estratégicos – saúde, agro-negócio, turismo, transformação digital – e projectos estruturantes como o Corredor do Lobito, que reforça a conectividade regional. A anunciada Cimeira Global para o Investimento em África (Luanda, 2024) representa a continuação desta estratégia de atracção de capitais internacionais.
Na dimensão da segurança sanitária, o mandato de Lourenço coincidiu com um período de transformação institucional do Africa CDC, onde exerce influência directa como presidente do Comité de Supervisão. O aumento das subvenções de 52 para 462 milhões de dólares americanos reflecte não apenas uma priorização política da saúde pública, mas também uma diplomacia eficaz na mobilização de recursos internacionais. A meta de certificação ISO 9001 simboliza a aposta na profissionalização e transparência da governação sanitária continental.
Perante o panorama de crises múltiplas – desde o Sudão (crise humanitária) à expansão do terrorismo no Sahel (Mali, Burkina Faso, Níger, Nigéria, norte dos Camarões) – Lourenço propôs na Cimeira de Adis Abeba a realização de uma Cimeira Extraordinária dedicada às ameaças à paz, segurança e desenvolvimento. Esta iniciativa, a realizar em Luanda ainda em 2024, sugere uma abordagem proactiva que combina a dimensão da segurança com a do desenvolvimento, reconhecendo a sua interdependência.
A análise do percurso recente de João Lourenço revela assim uma evolução de um papel institucional temporário (presidência da UA) para funções estratégicas permanentes que lhe permitem influenciar tanto a paz como o desenvolvimento africano. Esta dupla capilaridade – entre resolução de conflitos e arquitectura económica – posiciona-o como uma figura central na governação continental, cuja influência parece destinada a perdurar para além dos ciclos rotativos formais da UA.
Fonte: Angola Press



