O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva esclareceu, durante a sua participação em Nova Délhi, que não existe qualquer proposta formal para a criação de uma moeda única do bloco BRICS, contrariando especulações que têm circulado em fóruns económicos internacionais. Contudo, a sua intervenção revela uma estratégia mais subtil e pragmática: promover a avaliação, por parte dos países membros, da conveniência de continuar a utilizar exclusivamente o dólar americano nas transações comerciais.
Lula enfatizou, numa entrevista à emissora India Today, que o foco actual não reside na criação de uma nova moeda, mas sim na exploração de mecanismos que permitam a negociação directa entre as economias do bloco, utilizando as suas próprias moedas nacionais. “O que queremos é ver se é possível negociar com a China usando moeda brasileira e moeda chinesa. Se é possível negociar com a Europa usando a moeda europeia como referência”, afirmou o mandatário, sublinhando uma abordagem gradual e bilateral.
Esta posição reflecte um reconhecimento tácito das complexidades inerentes a uma desdolarização abrupta. Lula admitiu que o processo é difícil e que compreende as preocupações dos Estados Unidos, cuja moeda detém o estatuto de divisa de reserva global. “É difícil? Sim, é difícil. Mas podemos tentar. Ninguém precisa depender do dólar, mas também não dá para desmontar esse sistema da noite para o dia”, declarou, acrescentando: “Obviamente, eu entendo as razões dos americanos: eles não querem criar outras referências porque o dólar é a moeda mundial, a moeda mais forte que temos. Eu entendo a preocupação deles”.
Analiticamente, esta declaração pode ser interpretada como um equilíbrio estratégico entre a aspiração de maior autonomia monetária dos países emergentes e a realidade geopolítica actual. Ao negar a moeda única, Lula evita confrontos directos com os EUA, enquanto ao defender a diversificação monetária, sinaliza uma vontade de reduzir a vulnerabilidade económica face a flutuações do dólar e a políticas monetárias externas. O contexto histórico de tentativas anteriores de desdolarização, como as iniciativas da Rússia e da China, sugere que este é um movimento de longo prazo, com implicações potenciais para a arquitectura financeira internacional.
Fonte: Valor Econômico



