A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como ‘El Mencho’, líder do cartel Jalisco Nova Geração, numa operação militar com apoio de inteligência norte-americana, precipitou uma das mais graves crises de segurança pública no México dos últimos anos. Este evento não representa apenas a eliminação de uma figura central no narcotráfico, mas um ponto de inflexão que expõe a fragilidade institucional e o poder de retaliação dos grupos criminosos, cujas repercussões se estendem da vida quotidiana dos cidadãos à imagem internacional do país.
A onda de violência que se seguiu à operação levou pelo menos dez dos 32 estados mexicanos a suspenderem as aulas presenciais na segunda-feira, 23 de janeiro, uma medida extrema que sublinha o nível de caos instaurado. Estados como Jalisco, Nayarit, Michoacán, Querétaro, Guanajuato, Colima, Veracruz, Oaxaca, Baja California e Hidalgo viram o funcionamento normal das suas comunidades ser profundamente perturbado. O Poder Judiciário autorizou ainda o encerramento de tribunais, enquanto o governo dos Estados Unidos emitiu um alerta urgente para que os seus cidadãos no México permanecessem em casa, reflectindo a gravidade da situação percebida pela principal potência vizinha.
Em Jalisco, epicentro do cartel e palco do confronto fatal, a capital Guadalajara foi paralisada. O governo estadual decretou a suspensão do transporte público em algumas áreas e instou a população a procurar abrigo, enquanto o aeroporto internacional foi fortemente vigiado após cenas de pânico. Esta cidade, que será uma das sedes da Copa do Mundo da FIFA em 2026, partilhada com os Estados Unidos e o Canadá, transformou-se num cenário de bloqueios de estradas com veículos incendiados, estabelecimentos comerciais encerrados e uma atmosfera dominada pelo som de sirenes de emergência. Testemunhos, como o de María Medina, uma trabalhadora cuja loja foi incendiada, ilustram o terror vivido pela população civil, coagida por homens armados.
A violência rapidamente se alastrou para além de Jalisco, afectando estados vizinhos como Michoacán e outros como Puebla, Sinaloa e Guerrero. No balneário turístico de Puerto Vallarta, também em Jalisco, bloqueios e incêndios de lojas ocorreram, com viajantes a perderem voos devido à impossibilidade de chegar aos aeroportos. As consequências económicas e logísticas são significativas: partidas de futebol do Campeonato Mexicano, masculino e feminino, foram suspensas, e companhias aéreas canadenses e norte-americanas cancelaram dezenas de voos para o México.
Analiticamente, a morte de ‘El Mencho’ representa um golpe significativo para o cartel Jalisco Nova Geração, uma das organizações de tráfico mais poderosas do México, especializada no transporte de cocaína, metanfetamina e, mais recentemente, fentanil para os Estados Unidos. No entanto, longe de ser uma vitória definitiva, este evento pode desencadear disputas internas pelo controlo do cartel e uma escalada de violência entre facções rivais, num cenário onde a estabilidade é precária. A operação, que contou com apoio de inteligência da era Trump, evidencia a complexa e por vezes conturbada cooperação em segurança entre o México e os Estados Unidos, num contexto em que Washington já ameaçou realizar operações no território mexicano.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, apelou à calma, afirmando existir ‘absoluta coordenação’ com os governos estaduais. Contudo, a extensão e rapidez da resposta violenta do cartel colocam em questão a capacidade das autoridades para conter retaliações imediatas e proteger a população. Esta crise revela não apenas o poder operacional dos cartéis, capazes de paralisar regiões inteiras, mas também os desafios profundos que o México enfrenta no combate ao crime organizado, onde acções militares pontuais podem ter consequências imprevisíveis e devastadoras para a segurança pública e a normalidade democrática.
Fonte: Folha de S.Paulo



