A exposição “Homenagem a Sebastião Salgado”, inaugurada a 21 de junho na prefeitura de Paris, transcende o mero tributo póstumo para revelar as múltiplas camadas da relação simbiótica entre o fotógrafo brasileiro e a capital francesa. Esta mostra, concebida como retribuição ao amor de Salgado por Paris – cidade onde residiu durante a maior parte dos seus 81 anos – assume um carácter profundamente analítico ao explorar não apenas a obra do artista, mas também o seu legado familiar e ambiental.
A cenografia, tradicionalmente dirigida por Lélia Wanick Salgado, esposa e colaboradora de mais de meio século, enfrentou o desafio inédito de organizar uma exposição sem a presença física do fotógrafo, falecido em maio de 2024. “Hoje eu imagino tudo, mas chamo o nosso grupo, cada um dá o seu palpite”, revela Lélia sobre o processo criativo no escritório mantido pelo casal há três décadas junto ao canal Saint-Martin. Esta mudança metodológica reflecte não apenas uma adaptação à ausência, mas também uma evolução na preservação do legado artístico.
Com 200 imagens – incluindo 114 pertencentes ao centro Maison Européenne de la Photographie – a exposição percorre as séries globais de Salgado enquanto desvenda a sua intimidade parisiense. A dimensão pessoal emerge através do testemunho de Lélia: “Vou fazer 80 anos, vim para cá com 22. Nossos filhos nasceram aqui.” Esta declaração contextualiza a mostra como um retrato biográfico que ultrapassa a mera retrospectiva fotográfica.
O envolvimento cívico de Salgado com Paris atingiu o seu auge em 2024, quando a prefeita Anne Hidalgo o incumbiu de produzir a imagem do cartão de Natal oficial. A escolha surpreendente – uma trilha na Petite Ceinture, longe dos clichés turísticos – demonstra a visão singular do fotógrafo sobre a cidade. Este encargo evoluiu para um projecto mais ambicioso: documentar Paris nas quatro estações para uma grande exposição no Museu Carnavalet. Contudo, problemas de saúde impediram a sua conclusão, com Salgado a abandonar o trabalho em janeiro de 2025 após um único dia de labor.
A promessa póstuma de Hidalgo – “Paris, sua cidade, que ele amava, retribuirá com a homenagem que ele merece” – materializa-se nesta exposição que funciona como diálogo entre a cidade e o artista. Paralelamente, o legado salgariano continua através de duas vertentes: o escritório parisiense, que prepara futuras exposições, e o Instituto Terra em Aimorés (Minas Gerais), dirigido pelo filho Juliano Ribeiro Salgado. A recente aquisição de terras, financiada por uma seguradora suíça, permitirá expandir o reflorestamento que já plantou mais de três milhões de árvores em três décadas.
A dimensão familiar completa-se com a inclusão na exposição da obra de Rodrigo Salgado, filho mais novo com síndrome de Down que descobriu na arte a sua forma de expressão. Os seus desenhos, transformados em vitrais pelo prestigiado ateliê Simon Marq, decoram actualmente uma catedral dessacralizada em Reims. A ironia temporal revela-se pungente: a inauguração ocorreu um dia após a morte do pai, impedindo-o de testemunhar esta concretização artística do filho. Em gesto simbólico, uma das janelas da prefeitura de Paris foi transformada em vitral de Rodrigo, criando um diálogo arquitectónico entre o património familiar e o espaço urbano.
Esta exposição configura-se, portanto, como um exercício de memória activa que entrelaça arte, cidade e legado, demonstrando como a relação de Salgado com Paris se construiu através de camadas sucessivas – do pessoal ao profissional, do artístico ao ambiental – que esta mostra desvela com rara profundidade.
Fonte: Folha de S.Paulo



