O quarto aniversário da guerra na Ucrânia, o conflito mais violento em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, foi marcado por uma apatia global e uma evidente exaustão, tanto no terreno como nas capitais ocidentais. Negociações estagnadas, um evento comemorativo esvaziado em Kiev, a manutenção da disposição russa e o desvio do foco internacional para a crise no Irão contribuíram para reduzir a intensidade dos holofotes sobre esta data simbólica.
Em 2023, às vésperas do primeiro aniversário da invasão, um desafiador Joe Biden desembarcava em Kiev para renovar pessoalmente o apoio dos Estados Unidos ao presidente Volodymyr Zelenskyy. Três anos depois, o cenário é radicalmente diferente. Zelenskyy fez um apelo público para que Donald Trump, o provável candidato republicano, visitasse a capital ucraniana. “Eu realmente queria vir aqui com o presidente dos Estados Unidos um dia. Tenho a certeza: só vindo à Ucrânia e vendo com os próprios olhos a nossa vida e luta é que uma pessoa pode compreender esta guerra”, declarou o líder ucraniano num pronunciamento de 18 minutos, repleto de imagens de políticos internacionais a visitar memoriais de guerra na cidade.
Este espírito de solidão diplomática refletiu-se no evento principal de homenagem às vítimas da guerra, realizado no centro de Kiev. A figura de maior relevo presente era a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Até países vizinhos e aliados próximos, como a Polónia, enviaram apenas representantes de segundo escalão, um sinal claro do desgaste político e da normalização do conflito na agenda internacional.
No plano diplomático, Zelenskyy afirmou esperar que as negociações mediadas pelos EUA sejam retomadas ainda esta semana em Genebra. No entanto, as três rondas anteriores apenas evidenciaram o fosso intransponível entre as partes em temas fundamentais, como cessões territoriais ou garantias de segurança contra uma futura ação militar russa. Do lado de Moscovo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou que os objetivos da “operação militar especial” – proteger as populações russófonas no leste da Ucrânia – permanecem inalterados. Peskov voltou a defender a via diplomática, mas simultaneamente reforçou a narrativa de que a intervenção ocidental a favor de Kiev transformou o conflito numa guerra de procuração entre a Rússia e o Ocidente.
Esta narrativa é particularmente útil para o Kremlin num momento em que o impulso positivo registado no ano passado, com algumas vitórias táticas a um custo humano altíssimo no leste ucraniano, não se traduziu em avanços estratégicos decisivos. Pelo contrário, Kiev conseguiu reorganizar parte das suas defesas e, com a interrupção provocada por Elon Musk no acesso ilegal russo aos terminais de internet por satélite Starlink, registou até algumas reconquistas territoriais nas últimas duas semanas. Estes desenvolvimentos, contudo, são insuficientes para alterar o rumo geral de um conflito que assumiu um carácter claramente desgastante.
A estratégia de Vladimir Putin parece assentar precisamente nessa lógica de atrito. O bombardeamento sistemático do sistema energético ucraniano desde o final do ano passado, o mais intenso de toda a guerra, representa uma aposta clara do Kremlin em que a exaustão material e psicológica possa derrotar os seus adversários antes de qualquer colapso militar. Até ao momento, esta crença não se materializou, apesar dos cortes de energia diários impostos aos ucranianos durante o inverno mais rigoroso em décadas.
Para agravar o cenário de desfocagem internacional, as preocupações globais estão agora canalizadas para a ameaça de um ataque norte-americano ao Irão, um aliado estratégico da Rússia. A escalada de tensão no Médio Oriente, com navios de guerra e aviões de combate americanos a deslocarem-se em grande número para a região, promete atingir um novo pico com a próxima ronda de conversações indiretas entre Teerão e Washington, marcada para quinta-feira. Este desvio de atenção representa mais um desafio para Kiev, que luta não apenas no terreno, mas também pela manutenção do seu lugar na agenda geopolítica global.
Fonte: Folha de S.Paulo
