Um temporal de intensidade significativa atingiu a Ilha do Governador, na zona norte do Rio de Janeiro, na noite de quinta-feira, 19 de fevereiro, provocando alagamentos extensos e incidentes relacionados. O evento meteorológico destacou-se pelo volume de precipitação registado: segundo o sistema Alerta Rio, a região acumulou 49,2 milímetros de chuva em apenas duas horas, entre as 18h45 e as 20h45, o maior registo da cidade nesse dia. Este valor representa uma concentração pluviométrica notável, especialmente quando comparado com a média histórica para fevereiro na estação da Ilha do Governador, que é de 116,2 milímetros (com base em dados de 1997 a 2025). Até 20 de fevereiro deste ano, a região tinha registado uma média de apenas 15,8 milímetros, indicando que o temporal marcou um pico abrupto num mês até então relativamente seco.
Os impactos foram imediatos e visíveis. Ruas próximas à praia ficaram alagadas, um fenómeno descrito por moradores como incomum, com um residente a filmar o momento e a afirmar que era a primeira vez que via a beira da praia inundar. Na rua Tremembé, uma das mais inclinadas do bairro e situada perto do Aeroporto Internacional António Carlos Jobim (Galeão), um muro desabou sobre dois carros estacionados, destruindo-os completamente. A via foi parcialmente interditada pela Defesa Civil, embora o incidente não tenha causado feridos. Francisco de Assis, um pedreiro de 50 anos que vive no local, relatou que a chuva foi intensa e repentina, com a água a acumular-se com tanta pressão que empurrou o muro. Ele destacou que, apesar de as ruas mais baixas normalmente encherem, a força da correnteza foi diferente, algo que nunca tinha testemunhado nos seus sete anos a residir na área.
Além dos danos materiais, o temporal teve consequências humanas. Os bombeiros foram chamados por volta das 21h para a estrada Rio Jequiá, onde socorreram um homem de aproximadamente 60 anos que ficou preso num alagamento e sofreu um mal súbito. Ele foi encaminhado em estado grave para o Hospital Municipal Evandro Freire, sublinhando os riscos para a saúde pública em situações de inundação. Noutras zonas da cidade, como Saúde, Alto da Boa Vista, São Cristóvão e Grande Méier, também na zona norte, registaram-se acumulados de chuva menores, variando entre 9 e 28,6 milímetros, indicando que o temporal foi mais localizado na Ilha do Governador. Na região metropolitana, em São Gonçalo, a Defesa Civil emitiu avisos alertando para a possibilidade de chuvas intensas e orientando os residentes a abrigarem-se, reflectindo uma resposta preventiva às condições meteorológicas.
Contextualmente, este evento ocorre num período em que as alterações climáticas têm sido associadas a fenómenos meteorológicos extremos em todo o mundo, incluindo no Brasil. A rápida acumulação de chuva em áreas urbanas, como a Ilha do Governador, pode exacerbar problemas de drenagem e infraestrutura, levando a alagamentos e deslizamentos. A previsão de novas chuvas para o final do dia na região sugere que os riscos podem persistir, exigindo vigilância contínua por parte das autoridades e dos cidadãos. Analiticamente, o temporal serve como um alerta para a necessidade de investimentos em sistemas de alerta precoce e infraestruturas resilientes, especialmente em bairros costeiros e inclinados, onde os impactos podem ser mais severos. A ausência de atrasos nos voos do Aeroporto Galeão, apesar da proximidade, indica que os efeitos foram localizados, mas não menos significativos para as comunidades afectadas.
Fonte: Folha de S.Paulo



