Entre os concorrentes ao Oscar de melhor filme internacional, ‘Sirât’ destaca-se como a obra mais contemporânea, contrastando com o classicismo de ‘Valor Sentimental’ e a modernidade controlada de ‘O Agente Secreto’. O filme inicia com uma rave prolongada no deserto, onde figuras enigmáticas celebram um propósito desconhecido — possivelmente pós-punks, anarquistas ou niilistas —, estabelecendo desde logo um tom de mistério e dissidência.
A narrativa ganha profundidade com a entrada de Luis, interpretado por Sergi López, um homem burguês que, acompanhado do filho Esteban e da cadela Pipa, procura a filha desaparecida. A sua chegada ao acampamento de jovens dissidentes — alguns com membros amputados, evocando os bandidos desiludidos de ‘A Idade do Ouro’ de Luis Buñuel — cria um diálogo visual e temático com clássicos como ‘Rastros de Ódio’ de John Ford, sem comprometer a originalidade da obra. Pelo contrário, estas referências enriquecem a experiência, sublinhando a busca incessante que define o filme.
A aparição de uma tropa militar no deserto do Saara, entre Marrocos e Mauritânia, introduz um elemento de opressão e fuga, com os dissidentes a temerem o início de uma Terceira Guerra Mundial. Luis, obstinado no seu objetivo, alia-se a eles, financiando a gasolina junto de beduínos e iniciando uma aproximação gradual entre dois grupos aparentemente opostos. Esta dinâmica explora temas de identidade e sobrevivência, testando limites numa aventura que transcende os clichés televisivos ou digitais, focando-se na busca interior dos personagens, como referido pelo realizador Oliver Laxe.
O desenrolar da trama, sem pressa mas repleto de incidentes, conduz os protagonistas numa procura quimérica por uma rave que pode existir apenas nas suas mentes. O Saara, com o seu sol inclemente e paisagem assombrosa, torna-se um personagem central, onde a beleza e o perigo se fundem num ambiente que facilita o extravio físico e existencial. O filme confunde deliberadamente o trajeto com os destinos, sugerindo uma fusão entre personagens e caminho que culmina num território de terror subtil — não através de monstros ou zumbis, mas ancorado no real e no imaginário, gerando uma sensação de inquietação inteligente.
Em suma, ‘Sirât’ é uma obra assustadora e memorável pela sua ação, originalidade e profundidade analítica, consolidando-se como um dos filmes mais marcantes de 2025, com uma narrativa que desafia convenções e convida à reflexão sobre a condição humana em cenários extremos.
Fonte: Folha de S.Paulo






