A cultura portuguesa perdeu uma das suas figuras mais marcantes com o falecimento de António Casimiro, aos 91 anos, ocorrido esta segunda-feira em Lisboa. A notícia, divulgada pela Casa do Artista, marca o fim de uma carreira de mais de seis décadas que redefiniu os parâmetros visuais do espetáculo em Portugal, consolidando-o como um dos cenógrafos e figurinistas mais influentes da sua geração.
A trajetória de Casimiro revela-se particularmente significativa quando analisada no contexto do desenvolvimento das artes performativas portuguesas no século XX. Nascido em Lisboa em 1934, a sua formação na Escola de Artes Decorativas António Arroio e posterior licenciatura na Escola Superior de Belas Artes forneceram-lhe as bases técnicas que viria a expandir através de experiências internacionais cruciais. As suas bolsas na televisão italiana (RAI) em 1960, o curso em Florença em 1973 como bolseiro do Estado italiano, e o estágio em televisão a cores em Paris em 1976, colocaram-no na vanguarda das inovações tecnológicas e estéticas que transformariam a produção audiovisual europeia.
A sua entrada na RTP em 1958 como assistente do cenógrafo Octávio Clérigo marcou o início de uma relação profunda com a televisão pública portuguesa, onde exerceu funções de cenografista principal durante 22 anos e dirigiu o serviço de cenografia por 18 anos. Este período coincide com a consolidação da televisão como meio de massas em Portugal, sendo o trabalho de Casimiro fundamental na definição da identidade visual da programação nacional.
Para além da televisão, a sua influência estendeu-se ao cinema e teatro através de múltiplas colaborações e funções pedagógicas. A sua participação na direção da Sociedade Portuguesa de Autores e a coordenação cenográfica do Teatro Aberto em Lisboa demonstram o seu compromisso institucional com o desenvolvimento do setor cultural. Como docente na Escola Superior de Teatro e Cinema e na Universidade Aberta, transmitiu o seu conhecimento a novas gerações de profissionais, assegurando a continuidade da sua abordagem artística.
A exposição “Percursos Dispersos” dedicada pela Casa do Artista em 2024, que recriou o ambiente do seu ateliê, constituiu um reconhecimento tardio mas significativo da dimensão do seu legado. Como observou o encenador João Lourenço no comunicado da instituição, Casimiro será recordado como “um mestre da cena, cujo trabalho na construção de mundos visuais no cinema, na televisão e no teatro define uma parte essencial da história das artes do espetáculo em Portugal”.
A análise da sua obra revela não apenas um técnico exímio, mas um artista plástico que compreendeu a narrativa visual como elemento fundamental da comunicação dramática. A sua capacidade de transitar entre diferentes meios – da televisão ao teatro, do cinema às artes plásticas – demonstra uma versatilidade rara e uma compreensão holística da criação artística.
O falecimento de António Casimiro representa assim não apenas a perda de um indivíduo, mas o fecho de um capítulo na história cultural portuguesa, marcado pela transição das artes tradicionais para os meios de comunicação de massas e pela profissionalização do setor do espetáculo. O seu legado permanece visível nas produções que marcou e nas gerações que formou, constituindo um testemunho duradouro da evolução estética portuguesa nas últimas décadas.
Fonte: Sicnoticias Pt






