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Autobiografia de Gisèle Pelicot aborda caso de violência sexual que chocou a França

Gisèle Pelicot expressou o desejo de “desaparecer, não ver e não ser vista” meses antes do julgamento do seu ex-marido, Dominique Pelicot. O caso, que envolveu agressões sexuais durante uma década, gerou comoção internacional.

Dominique Pelicot, ex-companheiro de Gisèle com quem partilhou quase meio século de vida e teve três filhos, administrava medicamentos relaxantes e hipnóticos na comida e bebida da mulher. Enquanto ela se encontrava inconsciente, convidava homens conhecidos online para violar o seu corpo. Além de Dominique, outros 50 indivíduos foram acusados no processo.

A investigação teve início após Dominique ser detido por filmar sob as saias de três mulheres num supermercado em Mazan, na Provença. A polícia apreendeu o seu telemóvel e computador, encontrando no disco rígido uma extensa coleção de fotografias e vídeos caseiros que documentavam as agressões.

No livro “Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Julia da Rosa Simões, Gisèle Pelicot descreve os agressores como “homens de idades e profissões diversas, homens comuns”. A obra tornou-se um sucesso editorial após o julgamento.

A autobiografia explora o contraste entre os horrores vividos durante os períodos de sedação e as memórias de uma relação marcada por amor e ternura. Gisèle Pelicot recusa-se a apagar completamente o passado, afirmando que “a vida não se repete”.

O título original, “La Joie de vivre”, idêntico a um romance de Émile Zola, reflete a exploração da infância da autora e de Dominique. O subtítulo da edição brasileira remete à declaração de Gisèle Pelicot à entrada do tribunal, onde decidiu quebrar o anonimato e rejeitar um processo a portas fechadas.

Essa decisão, segundo a autora, alterou a lógica habitual que tende a culpar e envergonhar as vítimas de violência sexual. Gisèle Pelicot tornou-se um símbolo contemporâneo deste movimento, embora nunca se tenha definido como feminista.

A narrativa revela que a descoberta do caso ocorreu quando Gisèle e Dominique se deslocaram à esquadra para ele prestar declarações sobre o incidente no supermercado. Separada do marido, Gisèle descreveu-o como “uma pessoa gentil, atenciosa” antes de o inspector a alertar que lhe mostraria imagens desagradáveis.

As fotografias e vídeos exibidos, que incluíam cenas de agressão sexual no seu quarto, levaram ao reconhecimento do local através de um abajur identificável. Dominique foi detido nessa altura.

A revelação foi partilhada com a melhor amiga e com os filhos, provocando uma série de traumas que afetou profundamente a família. Os filhos destruíram pertences do pai e fotografias familiares. Gisèle Pelicot mudou-se para Paris, vivendo alternadamente nas casas dos filhos enquanto procurava solidão para assimilar os acontecimentos.

Ao reconstituir a vida conjugal, a autora percebeu que não tinha interpretado correctamente os sinais acumulados ao longo de quase uma década.

Fonte: Folha de S.Paulo

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