As chuvas intensas que têm assolado a província da Huíla, em Angola, culminaram esta segunda-feira num evento com profundas implicações para a segurança alimentar do país: a destruição parcial do canal de irrigação da Matala. Localizado a 180 quilómetros a leste do Lubango, este canal, com 42 quilómetros de extensão e alimentado pelo rio Cunene, constitui a espinha dorsal do maior perímetro irrigado de Angola, abrangendo 10,7 mil hectares que se estendem até ao município de Capelongo. A interrupção do fornecimento de água representa não apenas uma falha técnica, mas um sério revés para a produção agrícola nacional.
A análise dos factos revela que este incidente não foi um mero acidente meteorológico. A força das águas, combinada com a degradação avançada da infraestrutura – que foi reabilitada pela última vez em 2022 – criou as condições perfeitas para o rompimento. Este episódio expõe fragilidades estruturais persistentes e questiona a eficácia das intervenções de manutenção recentes. A localização do arrombamento, próximo da Fazenda Olombi Agro-negócio (um investimento chinês), adiciona uma camada geopolítica à crise, sugerindo possíveis tensões entre infraestruturas tradicionais e novos projetos de investimento estrangeiro.
O impacto humano e económico é imediato e significativo. Mais de 600 produtores, organizados em sete cooperativas agrícolas, encontram-se directamente afectados. Estas cooperativas produzem anualmente mais de 40 mil toneladas de produtos diversos, com destaque para batata, cebola, milho e alho – culturas essenciais para o abastecimento interno e potencial exportação. A interrupção do fluxo de água ameaça não apenas a produção corrente, mas pode comprometer ciclos agrícolas inteiros, com repercussões a médio prazo nos preços dos alimentos e na estabilidade económica regional.
A resposta institucional, conforme comunicado pela Administração da Matala, está centrada na avaliação de danos e no levantamento de materiais necessários para reparação. A direção municipal de Agricultura, Pecuária e Pescas enfatiza a necessidade de evitar perdas por infiltração, garantir fluxo eficiente e melhorar a distribuição uniforme. No entanto, esta abordagem reactiva contrasta com a necessidade de soluções estruturais mais duradouras.
Num contexto mais amplo, este incidente ocorre paralelamente a um estudo de viabilidade financiado pela Aliança Francesa para o Desenvolvimento, iniciado em 2024, que visa uma nova reabilitação do canal construído na década de 1950. Esta coincidência temporal levanta questões fundamentais sobre o planeamento de infraestruturas críticas: será que os estudos em curso já antecipavam estas vulnerabilidades? Como é que um canal reabilitado há apenas dois anos pode sofrer uma degradação tão avançada?
A crise da Matala serve como um microcosmo dos desafios de desenvolvimento que Angola enfrenta: infraestruturas envelhecidas, pressões climáticas crescentes, dependência agrícola crítica e a complexa integração de investimentos estrangeiros. A resolução desta situação exigirá não apenas reparações técnicas imediatas, mas uma reavaliação profunda das estratégias de gestão de recursos hídricos e de desenvolvimento agrícola sustentável.
Fonte: Angola Press



