Tricia Tuttle, diretora do Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), poderá ser demitida do cargo esta quinta-feira, conforme noticiou o jornal alemão Bild. O ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, que preside o conselho da Berlinale, deverá propor e aprovar o desligamento de Tuttle devido a alegações de antissemitismo.
A diretora americana esteve no centro da polémica durante a 76.ª edição do festival, ao defender que cineastas e atores não deveriam ser obrigados a posicionar-se politicamente. A discussão iniciou-se na entrevista de abertura, quando um jornalista questionou o júri sobre o conflito entre Israel e o Hamas, tendo o presidente do júri, Wim Wenders, respondido que o cinema é “o oposto da política”.
A posição de Tuttle foi criticada numa carta assinada por 81 profissionais da indústria cinematográfica, incluindo nomes como Javier Bardem, Tilda Swinton e Fernando Meirelles, que participaram em edições anteriores ou na atual do festival. Os signatários exigiram um posicionamento da Berlinale sobre a situação na Faixa de Gaza.
Em anos anteriores, o festival emitiu declarações sobre violações de direitos humanos no Irão e sobre a invasão russa da Ucrânia. Contudo, estas posições não foram consideradas suficientes para justificar a presença de Tuttle numa fotografia com a equipa do filme “Chronicles from the Siege”, do realizador Abdallah Alkhatib. Na imagem, tirada após uma exibição do filme no festival, várias pessoas usavam keffiyehs e um homem segurava a bandeira da Palestina.
Tuttle, que sempre defendeu o direito à manifestação apesar de adotar uma postura de neutralidade durante o festival, é acusada de antissemitismo pelos seus críticos. Tirar fotografias com as equipas dos filmes é uma das suas funções como diretora.
O incidente ganhou maior dimensão quando Abdallah Alkhatib repetiu o gesto ao receber um prémio na secção Panorama do festival no sábado passado. Ao aceitar o galardão, o realizador afirmou que o governo alemão era “conivente com o genocídio em Gaza”.
Durante a cerimónia, Tuttle defendeu o carácter político do festival, afirmando: “Somos uma instituição cultural muito visível. Somos uma instituição da qual as pessoas esperam muito. Precisamos aceitar o facto de que estamos a viver um momento polarizado e abraçar a comunidade que construímos juntos, porque criticar e expressar a nossa opinião faz parte da democracia, assim como discordar.”
Wolfram Weimer, desde que assumiu o cargo de ministro da Cultura no ano passado, tem procurado eliminar do sector o que considera ser uma tolerância ao antissemitismo. No seu primeiro dia no cargo, demitiu o chefe de gabinete Andreas Görgen, responsabilizado por um incidente semelhante durante a Dokumenta de 2022.
Fonte: Folha de S.Paulo



