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Empreendedorismo lidera aspirações em comunidades vulneráveis para 2026, segundo estudo

Uma pesquisa intitulada Sonhos da Favela 2026, realizada pelo Data Favela em parceria com a Data Goal, revela que ter um negócio próprio constitui o principal desejo dos moradores de comunidades vulneráveis no Brasil. O estudo, aplicado via WhatsApp a uma amostra de 4.471 pessoas de favelas das cinco regiões do país, com ênfase no Rio de Janeiro e São Paulo, analisa condições de vida e aspirações desta população.

De acordo com os resultados, 38% dos entrevistados manifestam o objetivo de abrir um negócio. Outros 24% pretendem trabalhar em áreas de seu agrado, enquanto 16% visam concursos públicos. Cleo Santana, presidente do instituto e diretora da Escola de Negócios da Favela, observa que estes dados reflectem não apenas uma vocação empreendedora, mas também carências estruturais. Santana sublinha que, na ausência de políticas eficazes de inserção no mercado formal, o empreendedorismo surge como alternativa imediata de sobrevivência.

O estudo contextualiza estas metas através da avaliação das condições de vida, considerando transporte, saúde, educação e infraestrutura territorial. Mais de 43% dos entrevistados classificam estes serviços como regulares, indicando oferta sem qualidade adequada. Santana afirma que a qualidade em serviços básicos está directamente associada à dignidade, e que os sonhos estão intimamente ligados ao entorno imediato.

No âmbito financeiro, 41% dos respondentes expressam o desejo de uma vida financeira mais organizada, incluindo a regularização do nome (37%) e a prevenção de novas dívidas (7%). Relativamente à habitação, 31% apontam como meta uma casa melhor, seguida por saúde de qualidade (22%). A expectativa de ascensão social estende-se à próxima geração, com 12% a indicarem a entrada dos filhos na universidade como objetivo, e 13% a considerarem a educação como via para essa ascensão.

A composição laboral dos entrevistados mostra que 25% trabalham com contrato formal, 34% na informalidade, e seis em cada dez não têm renda fixa. Quarenta por cento consideram fundamentais, para a ascensão social, políticas de inclusão no mercado de trabalho para pessoas negras e acções afirmativas na educação, como as cotas raciais.

O questionário incluiu categorias de autodeclaração racial, como pardo claro, preto claro, pardo escuro e preto retinto, que não existem oficialmente mas visam revelar aspectos estruturais da identidade racial. Oitenta e dois por cento dos entrevistados declararam-se negros, entre pretos e pardos, sendo 37% pardos claros. Santana questiona se esta classificação reflecte uma percepção influenciada por factores sociais, notando que pessoas de pele mais clara podem ter maior ‘passabilidade’ social, afectando oportunidades no mercado de trabalho.

Em matéria de segurança pública, 47% dos entrevistados referem como principal anseio o direito de ir e vir com tranquilidade. Vinte e nove por cento esperam menos violência, e 17% desejam um policiamento mais respeitoso. A nível nacional, 66% identificam a violência contra a mulher e o feminicídio como os principais desafios nas periferias, seguidos por emprego e renda (43%).

Quando questionados sobre políticas públicas urgentes, 65% indicam acções voltadas para o mercado de trabalho, 44% defendem campanhas educativas contra o machismo, e 43% citam a necessidade de delegacias e serviços de atendimento 24 horas. Trinta e seis por cento afirmam não confiar em nenhuma instituição, percentagem que sobe para 47% no Rio de Janeiro, reflexo de contextos de violência constante.

Apesar das adversidades, cinco em cada dez entrevistados acreditam plenamente que alcançarão os seus sonhos. Santana conclui que existe uma potência significativa nestas pessoas, que continuam a reinventar-se e a sonhar, mesmo perante serviços precários, salientando a necessidade de melhorias estruturais.

Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16,4 milhões de pessoas residem em favelas e comunidades urbanas no Brasil.

Fonte: Folha de S.Paulo

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