Um estudo recente analisou o impacto de sistemas de rotulagem nutricional na prevenção da obesidade. A investigação comparou dois modelos principais: o sistema de semáforo, que classifica nutrientes críticos com cores (verde, amarelo e vermelho), e o rótulo de advertência, que utiliza símbolos visuais como lupas para destacar quantidades excessivas de nutrientes.
Para efeitos de comparação, foi considerado um cenário de uso voluntário do selo de semáforo nutricional, actualmente utilizado na Inglaterra. Mantidas as regras actuais, a prevalência de obesidade entre adultos ingleses dos 30 aos 89 anos poderá atingir 28% em 2043. O modelo estima ainda 16 milhões de mortes por causas relacionadas com excesso de peso ou condições crónicas associadas.
Na simulação que considera a adopção obrigatória do sistema de semáforo nutricional em todas as embalagens, verificou-se uma redução de 2,3% na prevalência da obesidade em comparação com o cenário de referência. Em termos de mortalidade, o modelo projecta que aproximadamente 57 mil mortes relacionadas com a obesidade seriam prevenidas ou adiadas entre 2024 e 2043.
Com a implementação obrigatória do modelo que adiciona símbolos de advertência às embalagens, os efeitos positivos são maiores: a prevalência de obesidade apresentaria uma redução estimada de 4,4%. Quanto à mortalidade, o modelo calcula que cerca de 110 mil mortes relacionadas com a doença seriam evitadas ou adiadas.
Estes benefícios resultariam tanto da mudança de comportamento do consumidor como da resposta da própria indústria. Rótulos simples e directos tendem a ser melhor compreendidos e desencorajam a compra de produtos com perfil nutricional desfavorável. Da mesma forma, a exibição de advertências negativas nas embalagens poderia estimular reformulações nas receitas dos alimentos.
Em 2022, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tornou obrigatória a adopção dos rótulos de advertência no Brasil. Desde então, alimentos e bebidas provenientes da indústria e da agricultura familiar passaram a apresentar, na parte superior e frontal da embalagem, símbolos de lupa que sinalizam a presença de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio em excesso.
Esta medida foi concebida como uma solução para o cenário epidemiológico de obesidade e excesso de peso no Brasil. Em 2024, 62,6% da população adulta apresentava excesso de peso, uma incidência quase 20% superior à de 2006. A obesidade, por sua vez, mais do que duplicou no mesmo período, passando de 11,8% para 25,7%.
Os dados são do relatório de 2025 do Vigitel (Sistema de Vigilância de Factores de Risco e Protecção para Doenças Crónicas por Inquérito Telefónico) e apontam para uma tendência persistente, observada em todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e sexos.
O Plano de Acções Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crónicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, do Ministério da Saúde, estabelece como meta para 2030 manter a prevalência da obesidade abaixo dos 20,3% da população. Para atingir este índice, porém, apenas as mudanças na rotulagem não são suficientes.
Fonte: Folha de S.Paulo



