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Inteligência Artificial Redireciona Investimentos Globais e Afeta Valorização do Bitcoin

Após atingir o valor máximo histórico de 126 mil dólares em outubro do ano passado, o Bitcoin registrou uma desvalorização superior a 50%, entrando num ciclo de queda que analistas associam a alterações nos fluxos globais de capital. A hipótese predominante sugere que a inteligência artificial (IA) tem concentrado os investimentos destinados a ativos de risco, reduzindo a liquidez disponível para o mercado de criptomoedas, em particular para a sua principal representante.

Gustavo Cunha, especialista em convergência entre finanças e tecnologia e fundador da Fintrender, observa uma clara transferência de recursos. Segundo o analista, a IA tem absorvido quantidades significativas de capital, com investimentos a aumentar substancialmente. O capital que anteriormente se dirigia a ativos de risco está agora a ser canalizado para projetos de inteligência artificial, seja através de empresas cotadas em bolsa, seja via private equity e venture capital. Private equity e venture capital referem-se a fundos que investem diretamente em empresas não cotadas, geralmente em fases de crescimento ou expansão.

Cunha indica que os investidores institucionais têm migrado progressivamente para empresas e fundos ligados ao desenvolvimento e aplicação desta tecnologia, resultando em menos capital disponível para ativos de risco não focados em IA. Esta perspetiva é corroborada por relatórios internacionais. Analistas da Wintermute, uma das principais formadoras de mercado no ecossistema das criptomoedas, destacaram recentemente que a “mania da IA” tem absorvido capital disponível há vários meses, limitando o potencial de valorização dos criptoativos. A empresa avalia que, para o mercado cripto recuperar protagonismo, seria necessário um arrefecimento da chamada “IA trade”.

Gestoras globais têm igualmente sublinhado o peso crescente dos investimentos em IA, em detrimento de outros segmentos. A Fidelity Investments, gigante americana do setor, aponta que grandes empresas de tecnologia devem aumentar significativamente as suas despesas com inteligência artificial. A Blackstone descreve o movimento como um ciclo de investimentos maciços em centros de dados, chips, energia e conectividade, financiado maioritariamente por geração de caixa. Na prática, trata-se de um volume expressivo de recursos concentrado em poucas áreas, o que tende a reduzir a liquidez global disponível para outros investimentos de maior risco.

Apenas as quatro gigantes tecnológicas Alphabet (dona da Google e da Gemini), Microsoft (dona do Copilot), Meta (da Meta IA) e Amazon (com a AWS) anunciaram cerca de 700 mil milhões de dólares em investimentos nos seus projetos de IA somente este ano. Este montante supera o Produto Interno Bruto (PIB) de países como a Bélgica, a Suécia e a Argentina, e é o dobro do PIB do Chile e de Portugal.

No caso do Bitcoin, que atualmente conta com uma participação institucional predominante, a escassez de novos fluxos financeiros pode amplificar movimentos de venda. Ao contrário de ciclos anteriores, em que a criptomoeda era impulsionada sobretudo por investidores retalhistas, a dinâmica atual depende maioritariamente da alocação de grandes gestoras.

Cunha identifica um segundo vetor, de natureza comportamental e de difícil quantificação: a migração de parte do capital especulativo para mercados de previsão e plataformas de apostas. O analista refere que muitos utilizadores utilizavam o mercado cripto como uma forma de jogo, com a possibilidade de obter ganhos rápidos e fáceis, e que esses indivíduos estão agora a migrar para o mercado de apostas.

Dados internacionais mostram um crescimento acelerado do volume em plataformas deste tipo. Relatórios indicam que os mercados de previsão movimentaram cerca de 44 mil milhões de dólares em 2025, um crescimento quadruplicado num único ano. Em janeiro de 2026, o volume mensal aproximou-se dos 11 mil milhões de dólares. Segundo o relatório “2026 Digital Assets Outlook” da The Block, apenas as duas maiores plataformas do setor, Polymarket e Kalshi, somaram mais de 30 mil milhões de dólares em volume no ano passado. O segmento atraiu ainda 3,6 mil milhões de dólares em investimentos, incluindo um aporte de 2 mil milhões de dólares da Intercontinental Exchange (dona da Bolsa de Nova Iorque) na Polymarket. Contudo, não existem ainda evidências conclusivas de que este fluxo esteja a ser retirado diretamente do mercado cripto.

Seja por concentração estrutural de investimentos em inteligência artificial, seja por uma mudança no apetite especulativo, o Bitcoin enfrenta atualmente um ambiente em que o capital se mostra mais seletivo. A queda de mais de 50% desde o máximo histórico não aponta necessariamente para uma perda definitiva de relevância, mas sugere que, no ciclo atual, a disputa por recursos está mais acirrada, com a narrativa dominante a centrar-se na inteligência artificial.

Fonte: Valor Econômico

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