A Associação Argentina de Futebol (AFA) tomou uma medida sem precedentes ao suspender a nona rodada do Torneio Apertura, numa decisão que reflecte o agravamento das tensões entre a entidade dirigente do futebol argentino e as autoridades fiscais. Esta suspensão, que afecta todos os jogos programados entre 5 e 8 de Março, surge como resposta directa às investigações por alegada sonegação fiscal contra o presidente da AFA, Claudio “Chiqui” Tapia, e o tesoureiro Pablo Toviggino, num caso que envolve valores equivalentes a 73,5 milhões de reais.
A profundidade da crise institucional torna-se evidente ao analisar o contexto mais amplo. A AFA enfrenta não apenas acusações de evasão fiscal, mas também investigações por possível branqueamento de capitais, que em Dezembro levaram a operações de busca e apreensão de documentos. A entidade, contudo, mantém uma posição de negação categórica, afirmando ter cumprido todas as obrigações fiscais e caracterizando as acusações como infundadas.
O aspecto mais preocupante desta situação prende-se com as suas potenciais ramificações internacionais. Tapia, actualmente impedido de viajar ao estrangeiro por ordem judicial, está a tentar exercer pressão sobre o governo de Javier Milei para suspender as investigações, temendo que a FIFA possa intervir e sancionar a selecção argentina – actual campeã mundial – caso perceba ingerência governamental nos assuntos da federação nacional. Este receito ganha especial relevância com a aproximação da Copa do Mundo de 2026, a realizar nos Estados Unidos, México e Canadá.
Internamente, a decisão da AFA revela fracturas significativas no panorama do futebol argentino. Enquanto a maioria dos clubes expressou apoio à suspensão, incluindo o Central Córdoba, que classificou as acusações como “infundadas”, e o Atlético Tucumán, que considerou “inadmissível” a continuação do caso, emergem preocupações sobre o impacto duradouro destes desenvolvimentos na sustentabilidade financeira dos clubes e na estabilidade do campeonato.
A postura de Tapia, que em Novembro afirmou ter sobrevivido a três presidentes durante os seus nove anos à frente da AFA, sugere uma estratégia de confronto institucional que poderá ter consequências imprevisíveis. As investigações não apenas colocam em causa a gestão financeira da federação, mas também levantam questões fundamentais sobre a governação do futebol argentino num momento particularmente sensível, com a selecção nacional a defender o título mundial e o país a preparar-se para futuros compromissos internacionais.
Fonte: Folha de S.Paulo



