O Presidente do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, anunciou uma mudança estratégica significativa na política económica do país durante a Conferência Anual de Exportadores do ZimTrade, realizada em Bulawayo a 20 de Fevereiro. Esta declaração representa um afastamento deliberado do modelo económico tradicional do Zimbabué, que durante décadas se baseou predominantemente na exportação de matérias-primas não processadas.
Mnangagwa foi categórico ao afirmar que “o Zimbabué já não está satisfeito em ser apenas um fornecedor de minerais em bruto”, sublinhando que a nova orientação política privilegia o processamento local, a diversificação industrial a jusante e a transferência de tecnologia. Esta posição reflecte uma consciência crescente entre os decisores políticos africanos sobre as limitações dos modelos económicos baseados exclusivamente na exportação de recursos naturais não transformados.
Analiticamente, esta mudança de paradigma pode ser interpretada como uma resposta a múltiplos desafios estruturais. Historicamente, as economias dependentes da exportação de matérias-primas enfrentam vulnerabilidades significativas, incluindo flutuações nos preços internacionais das commodities e uma capacidade limitada de criar empregos qualificados. Ao focar-se no processamento local, o Zimbabué procura não apenas aumentar o valor das suas exportações, mas também desenvolver capacidades tecnológicas internas e fortalecer as ligações intersectoriais na economia nacional.
O contexto geopolítico actual torna esta estratégia particularmente relevante. Com a crescente procura global por minerais estratégicos como o lítio (essencial para a transição energética) e os metais do grupo da platina, o Zimbabué posiciona-se para capturar uma parcela maior do valor acrescentado ao longo das cadeias de abastecimento globais. A referência explícita de Mnangagwa à necessidade de “entrada e expansão nas cadeias de valor globais” sugere uma compreensão sofisticada das dinâmicas económicas contemporâneas.
No entanto, a implementação desta visão enfrentará desafios substanciais. O sucesso dependerá de investimentos significativos em infraestruturas de processamento, desenvolvimento de competências técnicas especializadas e criação de um ambiente regulatório favorável ao investimento. A referência à “transferência de tecnologia” indica que o governo reconhece a necessidade de parcerias internacionais para superar as limitações tecnológicas actuais.
Esta reorientação estratégica ocorre num momento crucial para a economia zimbabueana. O sector mineiro, que inclui recursos como ouro, cromo e os já mencionados minerais estratégicos, representa uma componente vital da economia nacional. Ao transformar-se de exportador de matérias-primas para centro de processamento regional, o Zimbabué poderá não apenas acelerar a sua industrialização, mas também posicionar-se como actor relevante nas cadeias de valor globais de minerais críticos.
A ênfase na criação de “marcas globais” a partir de produtos locais revela uma ambição que vai além do mero processamento industrial, apontando para a construção de vantagens competitivas sustentáveis baseadas na qualidade e na diferenciação. Esta abordagem, se implementada com sucesso, poderá servir de modelo para outras economias africanas ricas em recursos que procuram superar a chamada “maldição dos recursos”.
Fonte: Diarioeconomico Co Mz



