Durante décadas, a nutrição desportiva foi dominada por uma analogia simplista que comparava o músculo a um motor e o glicogénio – a forma armazenada de carboidratos utilizada para energia rápida – ao seu combustível. Segundo esta perspetiva, a fadiga surgia quando os depósitos de glicogénio se esgotavam, levando a uma estratégia aparentemente lógica: consumir quantidades elevadas de carboidratos para encher esses depósitos e, se possível, continuar a abastecer durante o exercício. A equação parecia direta: mais carboidratos equivaliam a um melhor desempenho atlético.
No entanto, uma análise mais aprofundada revela que esta visão é um mito que tem sido gradualmente desconstruído pela ciência contemporânea. Embora os carboidratos desempenhem um papel crucial no fornecimento de energia durante atividades físicas intensas, a ideia de que a ingestão máxima é sempre benéfica ignora nuances fisiológicas e contextos individuais. Pesquisas recentes indicam que a necessidade de carboidratos varia significativamente com fatores como a duração e intensidade do exercício, o tipo de desporto praticado, e as características metabólicas de cada atleta. Por exemplo, em atividades de endurance prolongadas, como maratonas, a reposição de glicogénio pode ser crítica para evitar a fadiga, mas em exercícios de curta duração ou de baixa intensidade, o corpo pode recorrer a outras fontes energéticas, como as gorduras.
A interpretação atual sugere que, em vez de uma abordagem universal de ‘mais é melhor’, os atletas devem adotar uma estratégia personalizada. Isso envolve ajustar a ingestão de carboidratos com base em objetivos específicos, como otimizar a performance, promover a recuperação muscular ou até mesmo adaptar o metabolismo para maior eficiência energética. Estudos demonstram que, para a maioria dos praticantes de desporto recreativo, quantidades moderadas de carboidratos – tipicamente entre 3 a 7 gramas por quilograma de peso corporal por dia – podem ser suficientes, enquanto atletas de elite podem necessitar de valores mais elevados durante períodos de treino intenso.
Em suma, o mito dos carboidratos como solução única para o desempenho desportivo está a ser substituído por uma compreensão mais matizada. A chave reside em equilibrar a ingestão com as necessidades reais do organismo, evitando excessos que podem levar a problemas como ganho de peso indesejado ou desequilíbrios nutricionais. Esta evolução reflete um movimento mais amplo na nutrição desportiva, que valoriza a individualização e a evidência científica sobre dogmas simplistas.
Fonte: G1



